| Crônica de Paulo Mendes Campos |
Confusões . 23
servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de
felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.
Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro
professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma
vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento
de trabalho, que é a língua.
Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas
tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo
e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português.
Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não
encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português;
acrescentava que eu produzira uma "pagina de bom vernáculo, exemplar".
Tive vontade de responder: "Mera coincidência"- mas não o fiz para não
entristecer o homem.
Espero que uma velhice tranqüila- no hospital ou na cadeia, com
seus longos ócios- me permita um dia estudar com toda calma a nossa
língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua
pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso:
pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me
aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu
poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?)
Alguém já me escreveu também - que eu sou um escoteiro ao
contrário. "Cada dia você parece que temde praticar a sua má ação -
contra a língua." Mas acho que iSSo é exagero.
Como também é exagero saber o que quer dizer escardichar. Já
estou mais perto dos cinqüenta que dos qua-
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renta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e
estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo - e
nunca soube o que fosse escardichar. Espero que nunca, na minha vida,
tenha escardichado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive
essa intenção.
Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas
não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não
quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses
cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não
me cumprimentar.
Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos
públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de
alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para
"pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei,
caireta, cairota ou cairiri- e a única utilidade de saber qual a palavra
certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não
acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do
expediente matando palavras cruzadas?
No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua
portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se
entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele,
gramático, aplica sobre nós, os ignaros.
Mas a mim é que não me escardicham assim, sem mais nem menos:
não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou
cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente- de Cachoeiro de Itapemirim!
Paulo Mendes Campos
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